Valoração de coleções museológicas: um aporte sobre a metodologia de Gerenciamento de Riscos

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| Maria Karla Belo |

Quando refletimos sobre o significado da palavra valoração, encontramos a seguinte definição: “atribuir determinado valor a algo” [1]. Imbuídos dessa responsabilidade, de emitir um juízo sobre determinado bem ou coleção, especificamos o seu valor tendo como consequências a visibilidade e salvaguarda dos bens valorados. Valoração, portanto, é o processo de pesquisa e compreensão dos significados e valores de itens e coleções e tem como propósito“(…) entender como e por que um item [ou coleção] é significativo” [2].

A valoração de coleções museológicas surge como uma resposta às inúmeras ameaças aos acervos museológicos, delimitadas por processos graduais de deterioração física, química e biológica, passando por eventos súbitos e catastróficos. Nesse horizonte de múltiplos acontecimentos relacionados à coleção, algumas questões são levantadas, naturalmente, diante das ameaças e da falta de recursos que permeiam o cotidiano de muitas instituições museais. Entre as perguntas, podemos citar: “O que fazer primeiro? Quais as prioridades do acervo? Em caso de uma situação-problema, o que faríamos primeiro, salvaríamos tudo? E tem como ‘salvar’ tudo? A valoração introduz um critério mais eficaz para “instruir e subsidiar esses processos decisórios”. [3]

Neste contexto, a valoração tem como finalidade contribuir com um plano de emergência que se fundamente no conhecimento das coleções e seus valores para que se possa identificar os pontos vulneráveis em situações de emergência, como incêndios, e fornecer um plano de recuperação, tendo como premissa que nem tudo poderá ser conservado (fig. 1).

Fig. 1– Exemplos de espaços que passaram por situações de emergência. (Fonte: EL PAÍS, 2016).

Deste modo, a valoração faz parte da metodologia de gerenciamento de riscos, atuando, mais especificamente, nas etapas de análise e de avaliação de riscos. O objetivo é determinar a magnitude de cada risco, tendo como horizonte de abrangência o impacto esperado sobre o acervo, utilizando ferramentas para determinar os critérios e estabelecer a prioridade de ações sobre as coleções. Bullock nos direciona para a criação de uma lista de prioridades de salvamento, na qual são identificados os itens mais importantes da coleção, visando estabelecer a prioridade de proteção em caso de desastres ou de uma ameaça em potencial aos objetos.

Nesta lista, devemos ter o contato atualizado de profissionais experientes e órgãos em prevenção emergencial, resposta e recuperação, como o Corpo de Bombeiros que, em caso de emergência, pode ser acionado. Este cronograma envolve, ainda, a preparação antecipada com a criação de redes de apoio em casos de incidentes que estreitará os laços com instituições e equipamentos congêneres. A formação de uma equipe multidisciplinar é algo valioso, tendo em vista que deverá contemplar todos os departamentos com o intuito de tomar decisões adequadas sob pressão.

“Em grandes organizações, existe um argumento para a criação de mais de uma dessas listas, pois profissionais experientes em prevenção emergencial, preparação, resposta e recuperação relatam que não é incomum, em emergências reais, descobrir que os detalhes de contato de pessoas nos planos não foram atualizados, pois mudaram de telefone ou emprego. Essa realidade pode prejudicar a utilidade de um plano. Os especialistas também relatam que, embora seja confortante pensar que os objetos podem ser removidos de uma área afetada, essa estratégia pode, na verdade, ser duplamente insensata em uma situação emergencial, considerando que movimento e manipulação representam normalmente a maior ameaça à segurança dos objetos. Acima de tudo, é importante que a equipe seja bem treinada em tomadas de decisão adequadas estando sob pressão, considerando as características particulares do desastre, sua localização, fração afetada da coleção e recursos disponíveis” [2].

Essa escala pressupõe uma soma ponderada de todos os critérios gerados pelas partes interessadas na metodologia de gestão de riscos, principalmente a etapa de análise de riscos, e resulta numa declaração de significância que tem como objetivo ser “(…) um resumo fundamentado e inteligível dos valores, significados e importância de um item ou coleção (…) ‘trata-se de um argumento sobre a forma e o motivo pelos quais um item ou coleção é importante’” [2].

A importância da valoração das coleções dentro da gestão de riscos significa não somente delimitar qual é a importância relativa de cada objeto ou grupo de objetos dentro da coleção, afastando-se um pouco da ideia de que todos os objetos têm o mesmo valor ou importância; mas, também, ao abarcar diferentes aspectos do funcionamento da instituição museal – como a conservação, a comunicação, a exposição e a pesquisa –, permitir estabelecer prioridades de atuação, especialmente diante da possibilidade de ocorrência de eventos catastróficos. Em uma situação de incêndio, por exemplo, resulta a necessidade de estabelecer claramente os objetos da coleção que deveriam ser “salvos” ou atendidos em caráter prioritário. [4]

Ferramentas para a Valoração de Coleções Museológicas

Fração do Valor de Acervo

A fração de valor de um acervo museológico, de acordo com Pedersoli [3], pode ser caracterizada pelo valor total do acervo que é distribuído entre os diversos componentes que o compõem, tendo em vista as diferenças de valor e importância entre os bens que integram os acervos.

Para quantificar as diferentes categorias de valor e estimar a fração total do acervo, usa-se uma etapa de análise quantitativa, através da articulação de valores que serão interligados, tais como: avaliação da importância relativa de itens ou grupos; tipologia de valor (histórico, religioso, científico etc.); ou outros atributos, como raridade, que somados colaboram para a realização de estimativas, considerando o valor total do acervo igual a 100%.

A Biblioteca do Congresso Americano, por exemplo, utiliza cinco categorias de valor relativo, quais sejam: platina, ouro, prata, bronze e cobre, ancoradas no valor intrínseco do objeto, em seu potencial para pesquisa, potencial para substituição etc. [3]

A Fundação Casa de Rui Barbosa [5], (fig. 2) por sua vez, dividiu seu patrimônio em seis componentes: coleções museológicas, coleções arquivísticas, coleções bibliográficas, coleção do Arquivo Museu de Literatura Brasileira, edificações históricas e jardim histórico. Neste caso, estabeleceu-se um consenso, estipulando que cada componente possui igual importância ou valor relativo ao acervo, como mostrado no diagrama abaixo. Os seis componentes foram analisados separadamente para se quantificar a importância relativa de cada subcomponente, sendo criadas três categorias: ARB, A e B (ARB: objetos próprios de Rui Barbosa, A: outros objetos únicos e B: demais objetos), através do mapeamento espacial de acervo do museu e da caracterização das edificações históricas.(fig.3)

Fig. 2– Diagrama geral de distribuição de valores do patrimônio cultural da Fundação Casa de Rui Barbosa (fonte: CARVALHO, op.cit.).

Fig. 3 – Tabela de Distribuição de valores segundo elementos das Edificações Históricas da Fundação Casa de Rui Barbosa (fonte: CARVALHO, op.cit.).

Pedersoli [3] ressalta que essas estimativas devem refletir os pontos de vista de todas as partes interessadas e relevantes, através de um processo consultivo, como grupo de trabalho ou conselho diretivo; além de abarcar, de maneira profunda, os acervos que serão avaliados para que, no final deste processo, possam refletir sua real importância.

Este processo vai muito além de diferenciar um bem de outro ou discutir quem é mais importante para a instituição; trata-se de expressar essas diferenciações em um sistema coerente, por meio de uma hierarquia de valor que,além de estabelecer uma ordem de intervenção, conduza o replanejamento das políticas dentro do museu e em suas áreas interdisciplinares, de modo a promover uma melhor distribuição e investimento de recursos.

Perda de Valor de Coleção

Para determinar a perda de valor em cada item afetado é realizado o seguinte esquema, produzido por Pedersoli [3] e apresentado aqui como um exemplo hipotético. Neste esquema são utilizadas três categorias de valor distinto em um acervo museológico. A segunda coluna indica a fração representada por cada categoria em relação ao valor total do acervo (100%), seguida pelo número de itens em cada categoria (coluna 3) e pelo valor fracionário/porcentual de cada item considerado individualmente, na última coluna. Exemplificamos na tabela abaixo:

Fig. 4 – Exemplo hipotético (fonte: PEDERSOLI, op.cit. 2014).

Na tabela acima (fig. 4), podemos observar algumas categorias criadas para auxiliar na valoração do acervo e no cálculo de perda de fração do acervo. Ainda baseado no exemplo hipotético de Pedersoli [6], podemos estimar essa perda em nossa instituição, através dos modelos contidos nas seguintes situações:

  1. “A perda de valor estimada para esse acervo hipotético resultante do furto de dois dos seus ‘tesouros’ seria da ordem de (2 x 2% =) 4%;
  2. Uma inundação em um porão onde 200 itens de ‘valor mediano’ estejam armazenados diretamente sobre o piso afetaria (200 x 0,01% =) 2% do valor total do acervo;
  3. Uma infestação de pragas em um mobiliário de guarda causando danos em 15 têxteis de ‘valor elevado’ afetaria (15 x 0,2% =) 3% do valor do acervo, e assim por diante”.

 

Neste processo, se faz necessário não apenas quantificar o impacto de cada risco, mas também projetar e quantificar a perda de valor esperada, tendo em vista que esse panorama auxiliará na comparação e estimativa da magnitude dos riscos, convertendo-se num quadro real de probabilidade de ocorrência de danos e de impacto esperado na coleção. Num exemplo hipotético de perda de valor esperado, criado por Pedersoli [3], temos: “Perda total ≅ 100%; perda significativa ≅ 10%; perda pequena ≅ 1%; perda muito pequena ≅ 0,1%, perda minúscula ≅ 0,01%, etc.”.

Vale destacar que todo esse processo de valoração está sincronizado com a etapa de análise de riscos e as Escalas ABC para a análise quantitativa dos riscos associados às coleções museológicas. O final desse processo propicia critérios reais para a priorização da tomada de decisões frente à gestão do patrimônio cultural, assim como favorece a discussão com outros atores envolvidos no processo de financiamento, como empresários e gestores, que podem não ter conhecimentos aprofundados acerca do patrimônio cultural. Desse modo, tal ferramenta fornece o modelo ideal na tomada de decisões, visando sempre a otimização de recursos e o gerenciamento dos riscos que afetam os acervos.

Aplicação experimental no Museu Regional de Caeté(MG)

O Museu Regional de Caeté – criado em 02 de janeiro de 1946 e localizado no município de Caeté (MG) –, está instalado em um imóvel de arquitetura civil do período colonial, construído em fins do século XVIII, que pertenceu, entre outras personalidades da região, ao Barão de Catas Altas. Atualmente é administrado pelo Instituto Brasileiro de Museus (IBRAM). O acervo possui 315 peças inventariadas de caráter histórico e cultural que espelham muito da própria cultura da região do Caeté e redondezas. Segundo Barboza, França e Souza [6], ali podem ser encontrados mobiliários e obras sacras que datam dos séculos XVIII e XIX, além do acervo bibliográfico, composto por 720 volumes. (fig. 5)

Fig. 5 – Fachada do Museu Regional do Caeté (fonte: TRIPADVISOR, 2016).

Sincronizada com a metodologia de gerenciamento de riscos, a aplicação das Escalas ABC nos oratórios expostos no Museu Regional de Caeté, para identificação dos riscos a que estavam submetidos, surgiu como parte de um Trabalho de Conclusão de Curso de alunos do programa de Especialização em Conservação e Restauração de Bens Culturais do CECOR-UFMG. Em um primeiro momento, os alunos realizaram uma observação das condições ambientais, expositivas e de guarda dos acervos, incluindo entrevistas com os funcionários para determinar um histórico de riscos, tendo como objetivo encontrar formas para minimizar os danos aos oratórios. [6]

A seguir, apresentamos o gráfico de magnitude de riscos produzido pela equipe de pesquisadores do CECOR-UFMG. A aplicação da Escala ABC identificou, em sua análise, problemas que vão desde a ventilação, umidade, poluição etc. e que afetam de maneira significativa os oratórios analisados pela equipe de estudantes (fig. 6).

Fig. 6 – Gráfico de Magnitude de Riscos do acervo de oratórios do Museu Regional de Caeté (fonte: BARBOZA; FRANÇA e SOUZA, op. cit., p.10).

No gráfico acima (fig.6), podemos identificar nove fatores de riscos levantados durante a pesquisa e aplicação. Durante a análise desses fatores, foram acionados como prioridades urgentes a ventilação, umidade, temperatura e poluição, dando ênfase à ventilação. Os autores encontraram registros de danos e de perdas significativas, como a queda de alguns oratórios, causada por esse fator de risco. A solução tomada pelos pesquisadores para combater as correntes de ar foi a seguinte:

“Tendo a quebra por queda como o principal risco ao qual o acervo de oratórios estava exposto, sugerimos então que o acervo fosse colocado em um suporte estável, amenizando os efeitos da trepidação provocada pelo trânsito intenso de carros e veículos pesados ou acidentes provocados durante limpeza e visitações; afastados de janelas, evitando possíveis quedas provocadas pelas correntes de ar e longe das paredes que apresentam altos índices de umidade”. [6]

Para tal, trocou-se o local expositivo dos oratórios para uma sala com correntes de ar amenas (fig. 7), buscando preservar a integridade dos bens ali salvaguardados por intermédio de uma medida simples para minimizar os riscos. Com base no processo de gerenciamento de riscos, vemos a utilização das etapas do ciclo e a busca por soluções que se enquadram nas condições financeiras da instituição.

Fig.7– Esquema de fluxo de corrente de ar no Museu Regional de Caeté(fonte: BARBOZA; FRANÇA e SOUZA, op. cit., p.10)

Como consideração final, os pesquisadores destacam que, apesar dos resultados satisfatórios, a proposta não pôde ser adotada na prática, pois não houve abertura por parte da instituição para a realização de tal ação .Deste modo, podemos perceber a importância da participação da equipe museológica e da divulgação desta metodologia de gerenciamento de riscos entre os profissionais, assim como a necessidade de um esforço conjunt opara aplicar ações que podem beneficiar o museu como um todo. Esta metodologia favorece uma visão abrangente sobre os danos que impactam de maneira negativa o valor dos acervos; contribui para um conhecimento mais aprofundado da coleção; e, ainda, maximaliza a tomada de decisão e o planejamento em médio em longo prazo sobre como a instituição lidará com as ameaças ao seu acervo.

De posse dessas informações, será possível programar maneiras de captar recursos dentro e fora da instituição, apresentando componentes reais e claros que facilitam o entendimento das reais necessidades e os benefícios que se poderá alcançar com o tratamento dos bens afetados.


Notas:

[1] VALORAR. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio Online, 2008. Disponível em: <https://dicionariodoaurelio.com/valorar>. Acesso em 10/10/2016.

[2] BULLOCK, Veronica M. Valoração como forma de priorizar o salvamento. In: Ensaios do Seminário Oficina em Gestão de Riscos ao Patrimônio Museológico. Brasília: Programa Ibermuseus,2014. p.20-28.

[3] PEDERSOLI, José Luiz. Modelando a perda de valor na análise quantitativa de riscos a acervos museológicos. In: Ensaios do Seminário Oficina em Valoração de Acervos Museológicos. Brasília: Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura, Programa Ibermuseus, 2014, p.270-277.

[4] DAZA, David Cohen; REGUERA, Mario Omar Fernández. Valoración: implicaciones para la gestión de riesgos, la conservación y el manejo de las colecciones. In: Ensaios do Seminário Oficina em Valoração de Acervos Museológicos. Brasília: Organização dos Estados Ibero-americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura, Programa Ibermuseus, 2014.p.90-96.

[5] CARVALHO, Claudia S. Rodrigues de. O Gerenciamento de riscos para o patrimônio cultural da Fundação Casa de Rui Barbosa.FCRB, Rio de Janeiro, s/data.

[6] BARBOZA, Kleumanery de Melo; FRANÇA, Conceição Linda de; SOUZA, Antônio Cruz. Ferramentas de Diagnósticos para Gerenciamento de Risco: aplicação experimental da ABC Scale no acervo do Museu Regional de Caeté. In: 1er. Congreso Iberoamericano y VIII JornadaTécnicas de Restauración y Conservación del Patrimonio”, 10 y 11 de Septiembre de 2009.  La Plata, Buenos Aires (Argentina), 2009, p.1-12.


Maria Karla Belo

Museóloga formada na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).


logo_rr_pp              EDIÇÃO n.2 2017

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