Revestimento de pedra fingida no centro de São Paulo

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| Fernanda Craveiro Cunha |


Este artigo aborda os aspectos históricos de um tipo de argamassa cimentícia de caráter decorativo que imita revestimentos pétreos, também chamado de massa raspada,e sua ampla utilização no centro de São Paulo no início do século XX, especialmente entre as décadas de 1920 e 1940.

As informações aqui apresentadas tiveram origem na Dissertação de Mestrado “O Revestimento de Pedra Fingida: protagonista invisível do centro de São Paulo”, defendida em outubro de 2016 no Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).


Conceitos iniciais

O revestimento abordado tem caráter decorativo e é configurado por argamassa cimentícia, cuja composição, aplicação e tratamento final são realizados com o intuito de simular revestimentos pétreos (figs. 1, 2 e 3). Não se trata apenas de um revestimento, mas de uma categoria que abarca diversos subtipos, cada qual assemelhando-se a determinado tipo de pedra. Este grupo de revestimento é conhecido popularmente por inúmeras alcunhas, como argamassa raspada, massa lavada, cimento penteado, argamassa de pó de pedra, cirex, etc., a depender dos tratamentos finais a que é submetido.

Por motivos metodológicos optou-se por uma denominação que fosse capaz de abarcar os diversos subgrupos, e, ademais, que evidenciasse a clara intenção de simulação/imitação atribuída a este revestimento, empregando-se o termo de revestimento de pedra fingida, ou simplesmente pedra fingida.

Trata-se de argamassa composta por cimento – seja ele cinza ou branco – areia e, na maioria das vezes, outros componentes como cal, mica, pigmentos e pó de pedra, sem necessariamente haver uma regra geral ou qualquer padronização de traço e composição. Cada “receita” era única e dependia da maestria dos frentistas, mão de obra especialista em pedra fingida, para executá-las de acordo com o aspecto almejado durante o andamento das obras [1].

De caráter absolutamente artesanal, um dos únicos avanços do revestimento em direção à uma produção mais racional foi a disponibilização no mercado de argamassas vendidas prontas e ensacadas, com traços pré-determinados, comercializados por marcas como Cirex, Durex, Neorex e Quartzolite, entre outras [2].

Fig. 1 – Revestimento de Pedra fingida na fachada do Banco de São Paulo (fonte: elaborada pelo autor, 2012)

Fig. 1 – Revestimento de Pedra fingida na fachada do Banco de São Paulo (fonte: elaborada pelo autor, 2012)

Fig. 2 – Revestimento de Pedra fingida (fonte: elaborada pelo autor, 2016)

Fig. 2 – Revestimento de Pedra fingida (fonte: elaborada pelo autor, 2016)

Fig. 3 – Revestimento de Pedra fingida (fonte: elaborada pelo autor, 2016)

Fig. 3 – Revestimento de Pedra fingida (fonte: elaborada pelo autor, 2016)

Origens e Contextualização Histórica

A maioria das construções europeias praticadas entre os séculos XV até a metade do século XX é caracterizada pela presença de decorações e ornamentos de intenção plástico-arquitetônicas que enriqueciam e valorizavam as fachadas dos edifícios. Essas decorações, comumente utilizadas para emoldurar vãos e destacar trechos das edificações, eram inicialmente realizadas com nobres materiais pétreos – resultado de refinado, laborioso e, evidentemente, oneroso trabalho de cantaria e lapidação [3].

A importância desses elementos foi de tal forma incorporada à arquitetura, que prevaleceu sobre as questões econômicas. Assim, se os ornamentos de pedra eram demasiadamente custosos, a partir do Renascimento contornavam-se as dificuldades com o desenvolvimento de técnicas e materiais menos dispendiosos para viabilizar as decorações almejadas, utilizando-se argamassas de cal aérea ou acabamentos mais elaborados como o marmorino italiano, cuja composição levava cal como ligante e pó de mármore como agregado [4], ou o coad stone britânico, material cerâmico derivado do grés com grande resistência à umidade.

Segundo Cavallini e Chimenti, dentre os profissionais que utilizaram argamassas de cal na tentativa de imitar materiais pétreos na Itália estão os célebres Bramante (1444 – 1514), Palladio (1508- 1580) e Bernini (1598 – 1680) [5]. Apesar de bem-sucedidos em suas empreitadas, sabe-se, atualmente, que as imitações de pedra feitas a cal são bastante limitadas. A pedra artificial de cal aérea não permite ser trabalhada após seu endurecimento, talhada como se faz com a pedra natural, sob o risco de ruptura de grandes trechos de superfície, limitando a imitação de tipos e acabamentos. Ainda, em função de suas propriedades, é notável a rápida degradação das pedras artificiais de cal frente às intempéries: sua coloração não era executada na mistura da argamassa, mas pintada a fresco [6], facilitando as descolorações em decorrência da exposição luminosa e da ação das águas pluviais [7]. Outro aspecto desfavorável do ponto de vista de sua conservação física é o fato da argamassa de cal fornecer espessuras reduzidas em relação às argamassas hidráulicas, provocando, assim, degradação relativamente acelerada diante das intempéries, especialmente em relação às chuvas, capazes de deteriorar e destacar grandes áreas, expondo o paramento [8].

A popularização do uso do cimento Portland, ligante hidráulico desenvolvido por Joseph Aspdin a partir do cozimento de mistura de calcário e argila em 1824, deu-se nas últimas décadas do século XIX e permitiu a criação de uma argamassa pigmentada a seco que, quando trabalhada adequadamente, fornecia um aspecto similar ao das pedras naturais, com resultado estético de incrível eficácia e duração [9].

Cavallini e Chimenti frisam que a criação da verdadeira pedra artificial somente se tornou possível com a introdução do cimento Portland no processo construtivo[10]. A argamassa obtida com cimento pode ser colorida com pigmentos em pó de acordo com o material pétreo a que se deseja imitar, obtendo-se resultados estéticos até então inimagináveis [11]. Já segundo o Department of Scientific and Industrial Research na Inglaterra as primeiras tentativas para obtenção de um revestimento externo sem a necessidade de pintura de acabamento, tratada até aquele momento como camada de proteção das argamassas derivadas de cal e compostas por aguadas de cal com óleo de linhaça, foram realizadas apenas a partir do advento do cimento Portland e eram chamadas de roughcast finish (revestimento de argamassa áspera) [12].

Comparando-se o desempenho das pedras artificiais cimentícias com aquelas feitas de cal, nota-se capacidade superior da cimentícia no que diz respeito à tenacidade, aderência ao substrato e ao seu endurecimento, pois, diferentemente da argamassa de cal que endurece prevalentemente na superfície – já que seu processo de endurecimento se dá exclusivamente em contato com o dióxido de carbono presente no ar – o cimento proporciona uma argamassa de dureza homogênea em toda a sua espessura, inclusive quando aplicada em camadas mais grossas que aquelas tradicionalmente utilizadas com argamassas de cal[13]. Ademais, as argamassas cimentícias podem ser coloridas a seco, enquanto a coloração das argamassas de cal é realizada apenas superficialmente através do uso de tintas à base de leite de cal [14].

Segundo Luca Rocchi, a introdução do termo pedra artificial deu-se apenas na segunda metade do século XIX, quando é requerida uma patente francesa no ano de 1875 apresentada com o título de pierrefactices, ou seja, justamente pedra artificial [15]. Definições semelhantes são encontradas ainda antes desta em alguns manuais italianos, mas que relatam procedimentos à base de cal hidráulica ou aérea.

As razões para a grande aceitação e difusão da técnica da pedra artificial cimentícia – a pedra fingida – a partir do fim do século XIX e sua vasta utilização tanto em território europeu quanto além-mar até meados do século XX se devem fundamentalmente a três aspectos:

i) ao custo reduzido em relação ao uso de pedras naturais [16];

ii) aos cânones arquitetônicos vigentes naquele período [17];

iii) às grandes expectativas construtivas do momento, que atribuíam ao cimento a equivocada característica de material imperecível [18].

Disseminação da pedra fingida em São Paulo

No Brasil, o uso do cimento Portland teve adesão relativamente tímida no fim do século XIX e assim prosseguiu durante o início do século XX, uma vez que se fazia necessária a sua importação da Europa, o que o onerava sobremaneira. Assim, sua utilização se dava prevalentemente em edifícios públicos ou nas construções privadas financiadas pelas classes abastadas, onde era empregado na estrutura (na composição do concreto armado), nos ornamentos (em elementos pré-moldados) e, por vezes, no revestimento (de pedra fingida).

Ainda no fim do século XIX ocorreram as pioneiras iniciativas de implantação de fábricas de cimento no Brasil: todas de pequeno porte, com produção ainda acanhada e, por vezes, intermitente, como a Fábrica de Cimento Rodovalho, instalada em Sorocaba[19]. Na primeira década de 1900 iniciou-se a produção da Fábrica de Cimento Ítalo Brasileira[20], a primeira a ser instalada na cidade de São Paulo. Pouco se sabe sobre o ano exato de sua fundação, mas segundo a edição do Diário Oficial do Estado de São Paulo de 19 de março de 1908, a Fábrica de Cimento Ítalo Brasileira, então já em pleno funcionamento, empregava mais da metade do capital da Societá Commerciale Italo-Brasiliana, Tomaselli, Raul Senra & Comp. [21].

A dinâmica de comercialização de cimento alterou-se expressivamente em meados dos anos de 1920, quando ocorreu a estruturação da Fábrica de Cimento Portland Brasileira, sediada em Perus, no município de São Paulo, com capacidade de produção bastante significativa [22]. Segundo Segurado, durante a década de 1930 a produção de Perus atingia duzentas mil toneladas de cimento anualmente [23].

A disponibilidade de cimento de produção nacional, oferecido no mercado a preços mais acessíveis, alimentou a avidez que a sociedade apresentava naquele momento pelo consumo da inovação: cada vez mais edifícios eram construídos com concreto armado, a nova e promissora técnica construtiva considerada, então, como indestrutível. E a pedra fingida era absolutamente adequada e compatível com essa estrutura de concreto: “o revestimento, numa extensão se constituiria também de cimento com elementos que o tornariam decorativo” [24].

A capital paulistana do início do século XX apresentava uma conjugação de fatores favoráveis à vasta adoção da pedra fingida: era historicamente reconhecida por sua escassez em jazidas de rochas ornamentais; apresentava-se em pleno desenvolvimento e crescimento urbano em decorrência da bem-sucedida economia cafeeira; contava com ampla oferta de mão de obra imigrante, especialmente a italiana, capacitada para a realização de trabalhos com a técnica de fingidos de pedra e colhia os primeiros frutos da recente atividade industrial com o estabelecimento da produção do cimento, já citado anteriormente, e a introdução no mercado de produtos impermeabilizantes nacionais como o Bianco e a Sika [25], ampliando o leque de soluções construtivas.

Ascensão e declínio da pedra fingida em São Paulo

Os desenvolvimentos tecnológicos que despontaram nos primeiros anos do século XX, especialmente na área da construção civil, como o aprimoramento da técnica do concreto armado e a disponibilidade de maquinários de elevador, criaram um ambiente propício ao início do processo de verticalização da capital paulistana, ávida por modernizações num período de florescimento econômico e de arranque das atividades industriais.

A construção do Ed. Guinle (fig. 4), em 1912, e do Ed. Sampaio Moreira (fig. 5), em 1924, encravados na paisagem do recém-concluído Parque do Anhangabaú, apontava a direção da transformação da capital impulsionada pelo café rumo a uma metrópole moderna e verticalizada. Esses dois edifícios, bem como o icônico Ed. Martinelli (fig. 6), inaugurado em 1929 com colossais 130 metros de altura, não por acaso apresentavam suas fachadas principais revestidas por pedra fingida: apesar de ter sido adotada também em imóveis de menor altura, a pedra fingida ganhara fama nas primeiras décadas do século XX por ser o revestimento “mais vantajoso para edifícios altos”[26], já que apresentava alta durabilidade, boa resistência às intempéries, possibilidades estéticas diversas, com variações de formatos e texturas, além de dispensar as frequentes e onerosas caiações, visto apresentar a coloração inserida já na argamassa através do uso de pigmentos ou pó de pedra. Ademais, atendia aos anseios de emprego do cimento, material resultante dos “recentes” avanços tecnológicos, totalmente compatível com as – cada vez mais presentes – estruturas de concreto armado e considerado naquele período como produto imperecível [27].

Fig. 4 - Ed. Guinle (fonte: elaborada pelo autor, 2012)

Fig. 4 – Ed. Guinle (fonte: elaborada pelo autor, 2012)

Fig. 5 - Ed. Sampaio Moreira (fonte: elaborada pelo autor, 2012)

Fig. 5 – Ed. Sampaio Moreira (fonte: elaborada pelo autor, 2012)

Fig. 6 - Ed. Martinelli (fonte: elaborada pelo autor, 2012)

Fig. 6 – Ed. Martinelli (fonte: elaborada pelo autor, 2012)

Até finais da década de 1920 as novas construções concebidas no centro da capital paulistana apresentavam, majoritariamente, características típicas do ecletismo [28], exibindo composições bastante ornamentadas, a exemplo dos edifícios supracitados, nos quais as características miméticas da pedra fingida em relação aos revestimentos de pedras naturais eram vastamente exploradas.

Segundo Cavallini e Chimenti, a partir dos anos de 1930 na Itália os revestimentos cimentícios de pedra artificial atingem uma espécie de independência que os redime da “imitação cansativa e servil” em relação aos revestimentos pétreos [29]. Esta alteração de intenção plástica é verificada também em São Paulo, quase simultaneamente, apresentando completo despojamento de ornamentos e sobriedade estilística em parte representativa das novas edificações realizadas a partir de meados da década de 1930, a exemplo do Edifício Anhumas, na R. Marconi, do Edifício Sulacap, na R. Anchieta, do Edifício Itá, na R. Barão de Itapetininga e tantos outros.

Este mesmo período, relacionado com frequência a uma transição entre o ecletismo e o modernismo, corresponde ao auge de outras linhas de manifestação estilísticas em São Paulo, como o Neocolonial e a arquitetura de viés Art-Déco.

No centro da cidade, poucos exemplares do estilo neocolonial foram edificados, tendo como ícone máximo a Faculdade de Direito, de 1941, localizada no Largo de São Francisco. O Art-Déco, em contrapartida, foi vastamente empregado, e adotou de tal maneira o revestimento de pedra fingida que este passou a ser uma de suas fundamentais características.Dentre os inúmeros exemplares de edifícios de características Art-Déco com revestimento de pedra fingida executados no centro de São Paulo, alguns dos mais conhecidos são o Ed. Saldanha Marinho à R. Líbero Badaró, o Edifício sede do antigo Banco de São Paulo à Praça Antônio Prado e o prédio do antigo Mappin à Praça Ramos de Azevedo.

Durante os anos 1940, os primeiros edifícios que receberam revestimento de pedra fingida na área central de São Paulo estavam completando já quase duas ou três décadas de aplicação. Neste momento, a ‘eternidade’ exaltada do cimento já havia provado ser irreal, e muitas fachadas e elementos de pedra fingida mostravam sinais de deterioração, expressando a necessidade de intervenções.

A atividade industrial havia crescido, assim como a quantidade de veículos automotores em circulação. Assim, cresceu também, e muito, a agressividade dos agentes atmosféricos com o aumento significativo de emissão de poluentes, provocando frequentes escurecimentos e outros danos como a desagregação e o destacamento do revestimento. Concomitante à deterioração pela poluição e pelos efeitos incontornáveis da passagem do tempo e da exposição às intempéries, surgia também a incisiva dificuldade de recuperação: a pedra fingida não aceitava obturações, que logo se tornavam cicatrizes descaracterizadoras, seja pela complexidade de refazimento de argamassa com mesma tonalidade e textura, seja pela característica do material cimentício de não disfarçar junções entre argamassa antiga e nova. A despeito dos obstáculos, as intervenções poderiam ser bem sucedidas, a depender da capacidade técnica da mão de obra especializada que, evidentemente, era custosa. Qualquer manutenção na pedra fingida, portanto, reclamava a presença de profissional altamente qualificado, fosse para uma singela limpeza, para reparação de trecho com infiltração ou para qualquer outro serviço de natureza mais intrincada.

Dentro deste contexto, é inaugurado em 1947 o Edifício sede do Banco do Estado de São Paulo, denominado atualmente de Edifício Altino Arantes (fig. 7), à R. João Brícola. Com 161 metros de altura, apresentava como revestimento da fachada principal granito rosa polido até a altura da sobreloja e, acima, pastilhas de porcelana. Segundo a Revista Acrópole, esta teria sido a primeira aplicação conhecida de pastilhas em fachadas, tendo demandado uma série de cuidadosas experiências para lograr o êxito de tal feito [30].

Fig. 7 - Ed. Altino Arantes (fonte: elaborada pelo autor, 2012)

Fig. 7 – Ed. Altino Arantes (fonte: elaborada pelo autor, 2012)

Apesar de apenas no fim da década de 1940 ter sido iniciado o uso de pastilhas de porcelana em fachadas, sua aplicação era bastante comum em revestimentos de piso, até mesmo antes de sua produção ser iniciada em território brasileiro, sendo, portanto, importada até 1934, quando é constituída a Indústria Paulista de Porcelanas Argilex S/A. Em 1947 são inauguradas outras duas fábricas de pastilhas: a Jatobá, de pastilhas de porcelana, e a Vidrotil, de pastilhas de vidro.

O sucesso do novo revestimento de fachadas apresentado no Edifício Altino Arantes acarretou repercussões de veemente impacto na construção civil. As pastilhas, de instalação e manutenção significativamente mais simples do que os revestimentos de pedra fingida, trouxeram novo fôlego à construção civil.

O alvoroço acerca do novo revestimento fora tamanho que alguns edifícios então projetados com especificações de pedra fingida receberam alterações durante a execução de suas obras para incorporarem as pastilhas de porcelana às fachadas, como é o caso do antigo I.A.P.C., atual edifício do I.N.S.S. à R. Brigadeiro Tobias, inaugurado em 1952 e do Edifício Sede do Banco do Brasil à R. Líbero Badaró, inaugurado em 1955.

O declínio é vertiginoso: a partir da década de 1950, o revestimento de pedra fingida foi praticamente abandonado. A essa altura, ganhou má-fama: era considerado pesado, feio, escuro, antiquado. Frente ao revestimento de pastilhas, a pedra fingida era de trabalhosa aplicação, exigindo ferramentas especiais –  alguns executados especificamente para cada trabalho como os moldes de correr –  além da mão de obra especializada com exigência de muitos anos de experiência. Sua manutenção era também de difícil realização, demandando grande perícia dos profissionais. Em contrapartida, a pastilha poderia ser facilmente instalada por mão de obra corriqueira, sendo a sua limpeza realizada apenas com água e sabão neutro. Possuía ainda múltiplas opções de cor, como bege, marrom, verdes, azuis e branco – o branco puro e leitoso, quase impossível de ser atingido com revestimento cimentício.

O mosaico entra no Brasil de mãos dadas com uma industrialização tardia, que chega com total intensidade a par de um incremento na construção civil e na urbanização. É para a construção civil que as fábricas de pastilha se instalaram no país, trazendo o novo revestimento – funcional, durável, padronizado, enfim, moderno [31].

Apesar de ter caído no esquecimento a partir da década de 1960, a presença da pedra fingida no centro de São Paulo é bastante marcante: dos 547 imóveis protegidos (tombados ou em processo de tombamento) dos distritos da Sé e da República, cerca de 40% apresenta fachadas de pedra fingida [32]. Esta elevada porcentagem, que se destaca dentre tantos tipos de revestimento existentes, indica ser a pedra fingida uma das técnicas de maior representatividade no centro de São Paulo, capaz de imprimir-lhe um caráter datado que remete aos áureos tempos vividos pela área central da cidade.


Notas

[1] Para mais informações acerca das questões técnicas da pedra fingida, consultar a Dissertação de Mestrado “O Revestimento de Pedra Fingida: protagonista invisível do centro de São Paulo”, de autoria de Fernanda Craveiro Cunha (IPT, 2016). Disponível em: < https://www.academia.edu/31720454/Revestimento_de_Pedra_Fingida_Protagonista_invis%C3%ADvel_do_centro_de_S%C3%A3o_Paulo_Artificial_stone_render_invisible_protagonist_of_the_center_of_Sao_Paulo_>

[2] Idem.

[3] CAVALLINI, M.; CHIMENTI, C. Pietre & Marmi Artificiali: Manuale per la realizzazione e il restauro delle decorazioni plastico-architettoniche di esterni e interni. 3. ed. Florença : Alinea, 2010. p. 13.

[4] ROCCHI, L. La pietra artificiale nell’architettura del “ventennio fascista”: Conoscenza e sperimentazione per il restauro. 2007. 194 f. Tese (Doutorado) – Curso de Tecnologia Dell’architettura, Universitá Degli Studi di Ferrara, Ferrara (Italia), 2009.

[5] CAVALLINI, M.; CHIMENTI, C. op. cit.

[6] Os fingidos de pedra realizados em fachadas apresentavam técnica absolutamente distinta à adotada na escaiola, cuja massa era aplicada já colorida. A escaiola, cujas características também imitavam revestimentos pétreos, era composta por gesso, cola animal e pigmentos, sendo aplicada somente em ambientes internos.

[7] CAVALLINI, M.; CHIMENTI, C., op. cit, p. 26, 27.

[8] Idem.

[9] ibidem, p. 13.

[10] Idem.

[11] Idem.

[12] DEPARTMENT OS SCIENTIFIC AND INDUSTRIAL RESEARCH (BUILDING RESEARCH STATION). Principles of Modern Building. 3. ed. Londres: Her Majesty’s Stationery Office, 1964. 1 v., pp. 252.

[13]  CAVALLINI, M.; CHIMENTI, C., op. cit,, p. 17.

[14] Ibidem, p. 102.

[15] ROCCHI, L. op. cit.

[16] CAVALLINI, M.; CHIMENTI, C., op. cit, p.18.

[17]  Idem.

[18] ROCCHI, L., op. cit, p. 8.

[19] ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE CIMENTO PORTLAND. Uma breve história do cimento Portland. Disponível em: <http://www.abcp.org.br/cms/basico-sobre-cimento/historia/uma-breve-historia-do-cimento-portland/>. Acesso em: 12 nov. 2015.

[20] Em 1909 a Fábrica possuía sede na Rua do Rosário, nº 12 (um dos antigos nomes da R. Quinze de Novembro) e sua diretoria era composta por Rodolfo Crespi, E. Loschi, Julio Micheli e Nicola Pugliesi Carbone, conforme informações do Diario Official de 29 de setembro de 1909.

[21] SÃO PAULO. Società Commerciale Ítalo-Brasiliana: Exercício de 1907. Diário Official [do Estado de São Paulo], São Paulo, 19 de março de 1908, p. 829.

[22] SEGURADO, J. E. dos S. Materiais de Construção. 5. ed. Lisboa: Livraria Bertrand, [193-?]. 559 p. (Biblioteca de Instrução Profissional), P. 247.

[23]  Idem.

[24]  SAWAYA, S. T. Arquitetura Decò na cidade de São Paulo: Apreciação do movimento enquanto contribuição para o repertório arquitetônico de São Paulo. 1982. 1 v. TCC (Graduação) – Curso de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 1982, P. 65.

[25]  ACRÓPOLE. São Paulo. 1938-1971.

[26]  BORGES, A.de C. op. cit.1978, p. 142.

[27]  ROCCHI, L., op. cit, p. 8.

[28]   Importante pontuar que a partir da década de 1930, apesar de ter perdido força com as novas tendências estilísticas, o ecletismo continuou sendo empregado em algumas  edificações, inclusive com fachadas de pedra fingida, a exemplo do Mercado Municipal (1933) à R. da Cantareira, do Prédio Feijó (1931) à R. Senador Feijó, nº 154, do Edifício São Nicolau (início da década de 1940) à Praça da República, nº 115, e tantos outros.

[29]   CAVALLINI, M.; CHIMENTI, C., op. cit.

[30]   ACRÓPOLE. São Paulo: 1947, ano 10, nº 116.

[31]   COELHO, I. R. P. A Produção de Painéis em Mosaico no Período Pós-Guerra em São Paulo: Industrialização e Modernidade Versus Tradição Artesanal. In: DOCOMOMO BRASIL, 5., 2003, São Carlos. Anais… . São Carlos: Docomomo, 2003. Disponível em: <http://www.docomomo.org.br/seminario 5 pdfs/062R.pdf>. Acesso em: 30 mar. 2016, p. 5.

[32]   CUNHA, F. C. O revestimento de Pedra Fingida: protagonista invisível do centro de São Paulo. Dissertação de Mestrado. São Paulo, IPT, 2016. Disponível em: <https://www.academia.edu/31720454/Revestimento_de_Pedra_Fingida_Protagonista_invis%C3%ADvel_do_centro_de_S%C3%A3o_Paulo_Artificial_stone_render_invisible_protagonist_of_the_center_of_Sao_Paulo_>


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Fernanda Craveiro Cunha

Arquiteta e Urbanista com especialização em Conservação Preventiva (IPCE Espanha), pós-graduação em Gestão de Obras de Restauro (CECI/UFPE) e mestrado em Tecnologia de Construção de Edifícios (IPT). Sócia do escritório MLD Arquitetura e Restauro.


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